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A maré não anda para peixe.

(Ou melhor, ando em dúvida por todo o meu ser)

O dizer da parede que registrei:

Viver

(sinal de diferente, pela ironia – ? – do sistema não achei o símbolo e nunca aprendi na escola como fazer)

Sobreviver.

Um grupo anda em direção contrária. Moças e moços. Um certo burburinho.

Pensei: “Assalto? Arrastão?”.

Fogo no posto.

Um cara armado atirando.

É esse o fogo?

Esse mesmo grupo com cara assustada, meio num mantra: “Fogo no posto”.

Eu, besta:

– Fogo de fogo mesmo?

– Sim.

– No posto?

– Olha a fumaça.

Corri.

E gritei: alguém avisa a polícia.

Puxando o celular do bolso.

Corri ligando para o 190.

Chama, chama.

Parei no bar da esquina e gritei:

– Fogo no posto. Liguem para a polícia.

Meu pensamento:

“Um estabelecimento comercial tem mais crédito que uma transeunte.”

Desliguei. E no primeiro toque da segunda chamada fui atendida:

– Fogo no posto. Na José do Patrocínio com a Luis Afonso.

– Número da José?

(Correndo e voltando)

– Próximo do 620.

– Liga também para o 193, o número dos Bombeiros.

(Liguei)

– Fogo no posto! De gasolina na José do Patrocínio.

(Não lembro o que o moço bombeiro falou. Sei que perguntou meu nome e, talvez, não sei se ele ou o moço da polícia, disse: já sabemos)

A fumaça aumentou muito. Já a sentia tóxica.

Não queria explodir com o posto. Ao mesmo tempo, que, não podia sair dali. Não mesmo.

Era um pensar:

“Gente, minha mãe vai me matar por ter ficado aqui.”

Ao:

“Como só correr?”

E os carros vindo.

Fiquei uns bons 20 minutos – bem mais –  de fiscal de trânsito.

O primeiro motorista de ônibus não acreditou em mim. O segundo também não.

Os automóveis dobravam. Eles seguiram em frente.

Para minutos depois, voltarem em marcha ré.

No entanto, os próximos busões já dobravam. Alguns desavisados, agradeciam o aviso.

Seguimos ali.

O carro dos Bombeiros chegou bem rápido.

Mas bem, se não viessem para um fogo no posto, estamos perdidos mesmo.

Um dos “fiscais” avisou um motorista:

– Fogo na bomba.

Risos. O que seria do Brasil sem as brasileiras e brasileiros, né não?!

Depois de controlado, o grupo grande vazou. Hehe  Ou melhor, foi embora.

Fiquei. Junto com um moço. E uma moça de pijama, vizinha do posto.

Tentei ligar para a EPTC, a falta de crédito no meu celular (Crise?) não deixou fazer a chamada.

Desisti. E segui meu papel de agente de trânsito.

Uns dois carros passaram, apesar do nosso aviso, e retornaram.

Um outro dialogou: “Minhas filhas estão nesse quarteirão. Vou estacionar ali e, preciso, ir até onde elas estão”.

“Passa, moço. “

Minutos depois:

– Fogo no posto.

– Sou do serviço da Inteligência dos Bombeiros.

(Pensei: “só vai! Que bom saber que isso existe!”)

A vizinha do posto ligou para a EPTC. Que logo chegou.

Nós três: ela, eu e o outro moço, demos pulinhos e salvas.

Marina o nome dela.

Sua cadelinha é a Dora. E ela, a mãe e a cachorrinha foram dormir na casa da Dinda, que é ali perto.

Os Bombeiros foram embora. Junto com a Polícia, que achou o carro com a bomba pendurada.

Ninguém se feriu. Graças!

Os frentistas iam seguir por lá. Trabalhando. Mas no estacionamento, e não, no abastecimento.

Eu segui.

Sem saber como lidar.

Creio que agi bem.

(Algumas páginas de um novo bloco de notas foram preenchidas quando sentei para pensar)

Sabe o que fica ecoando?

Sou eu ou a Porto Alegre?

Sou eu ou qualquer cidade?

Sou eu por não saber onde ir?

É a cidade que precisa de mim?

Ou sou eu que preciso dela?

ps – Tem que ter textão sobre essa água, no mínimo, blééééééééé.

 

Da série: divagações

Um dos meus alentos sobre a morte de escritores do naipe do García Márquez, Galeano e Saramago é que há um bocado de obras suas que não li ainda. E passeando pelos corredores da biblioteca da faculdade encontrei um Gabo ainda inédito para mim. E mais, havia lido algo sobre o livro na semana anterior. Foi assim que Notícia de um seqüestro acabou em minhas mãos.

Sobre minha relação com a obra de Gabriel García Márquez, é o escritor que leio mais rápido. Entro dentro de seus enredos por completo e só consigo parar quando as páginas acabam. O lado ruim é que, sim, às vezes detalhes se perdem. Já o lado bom é que sempre, sempre que releio seus livros o mesmo encantamento ocorre. Fora que mesmo quando fecho a última página, sua narrativa segue me acompanhando por alguns dias, quiça meses, anos…

Notícia de um seqüestro trata sobre episódios da história da Colômbia recente. É a guerra entre Estado e narcotráfico, principalmente na figura de Pablo Escobar. Para lutar contra a possibilidade de extradição, Escobar – e seu grupo – organizou inúmeros seqüestros de notáveis colombianos, muito deles jornalistas. Este período da Colômbia está sendo retratado por agora em seriados e filmes. Grande exemplo é a produção do Netflix – Narcos – com direito a José Padilha, Wagner Moura, policial estadunidense bonzinho, atores e atrizes mexicanos, argentinos e trilha de abertura do Rodrigo Amarante.

A leitura, o seriado e as aulas da faculdade trouxeram algumas reflexões. A primeira delas é de como não conhecemos a nossa história latino-americana e dos países vizinhos. De como passamos pelos mesmos problemas, tratamos isoladamente, mas no fundo tudo tem uma ligação. Seja o período das ditaduras militares, economia, desenvolvimento urbano e a tal da segurança. Do abismo na troca de saberes e culturas. Tenho buscado me informar um pouco mais, procurar, pesquisar, ouvir, mas de uma forma ainda tímida. Mas cada vez tenho mais certeza de que somos todos latino-americanos e isso significa muito.

Tenho pensado muito também sobre a questão de identidade. De como se forma, a questão do Brasil ser muitos, de gostar desses múltiplos pedaços de um país e de como podemos respeitar isso. Assim como a América do Sul. De valorizar nossas raízes mais antigas. De se reconhecer. Isso também tem a ver com a vivência no Museu Comunitário da Lomba do Pinheiro. Com as mudanças no território de Porto Alegre. Com a chegada dos meus 30 anos, hehe.

Já outro ponto é a questão da segurança. Dia desses em uma aula sobre diversidade cultural, assistimos um vídeo do Zygmunt Bauman falando sobre liberdade e segurança. Que ter uma e não ter a outra não serve nada. Logo, associei com a questão de Porto Alegre.

Porto Alegre tem se tornado uma cidade estranha, triste. Eu – que sempre a defendi e procurei andar por suas ruas – tenho sentido um certo cansaço. Claro, muitas coisas legais e pessoas bacanas seguem por aí. Sigo andando por suas ruas, no entanto carrego um sobressalto que não queria ter dentro de mim. E posso demonstrar esse confronto de uma maneira nítida.

Quando fiz 15 anos ganhei uma corrente fininha de ouro que o meu pai me deu. Desde então sempre a usei no pescoço e ela virou uma espécie de amuleto. Todas as situações em que fiquei tímida, ansiosa, pensativa, a tocava, algumas vezes girando, outras só para saber que ela estava ali. De uma maneira totalmente inconsciente, foi uma amiga que notou este gesto. Um dia a corrente arrebentou. Levei para São Gabriel para ser arrumada, comentei com a mãe o vazio no pescoço, das vezes que levei a mão ali e não encontrei nada. Nisso, a mãe “emprestou” uma corrente que era da minha avó Susana, junto com um pingente de elefante. As aspas no emprestou é porque nunca mais a devolvi.

Pois bem, a corrente e o pingente começaram a fazer parte de mim. Nunca os tirava, somente para viajar para lugares distantes. Um dia andando pelas ruas do Rio de Janeiro, me questionei e ri de mim: por que diabos eu tinha a sensação de segurança em Porto Alegre e não nas outras cidades? Com exceção do interior do Rio Grande do Sul e Florianópolis, sempre a tirava do pescoço. Como resposta, aceitei o “porque é a minha cidade, são as minhas ruas”.

O tal elefante começou a representar muito para mim. Ele é bem mais que um objeto, começou a ter o significado de família, de saudade. Por isso, escolhi-o para tatuar no braço. Uma figura pequena e delicada, ao mesmo tempo com uma força tremenda. Às vezes, é difícil responder em poucos segundos o significado da tatuagem ou o porquê é sim, família.

No feriado de 7 de setembro, eu fui para São Gabriel. Lá li muitos relatos e notícias de assaltos na capital gaúcha. Pensando na volta para Porto Alegre, tomei uma decisão. Ia tirar, por um tempo, do pescoço a corrente e o elefante. Ela tem algum valor material, é bonita, é vistosa, mas o mais importante é o valor sentimental. E pelo que me conheço, se tentassem encostar nela, eu ia acabar reagindo. Antecipando uma possível (re)ação, decidi que era melhor parar de andar com ela.

E isso significou muito. Perdi um pouco da minha Porto Alegre, da tranquilidade de andar pelas ruas da minha cidade. Dois dias depois cortei o meu cabelo. Este ato foi por inúmeras coisas, mas também teve um pouco disso. Nos primeiros dias, notei que ao invés do gesto no pescoço, eu ia em direção da nuca e afofava as madeixas curtas.

Comecei a usar outros colares, agora em outubro, trouxe de São Gabriel um que havia emprestado para a mãe. Não sei o seu valor. É um desses que vendem na praia ou nas barracas da Praça da Alfândega. Um fio preto com coquinhos e miçangas. Foi a escolha paliativa que achei.

Não sei o valor do colar porque o ganhei no último dia que estava em Salvador. Chovia e fazia frio na praia. Eu estava uma mistura de melancolia e pensamentos, usando o guarda-sol como guarda-chuva e voando longe. O vendedor parou, trocamos algumas palavras, não comprei nada. Depois de uns cinco minutos, ele voltou e me presenteou com o colar.

É o coquinho que segurei algumas vezes, enquanto escrevia estas palavras. Lendo o livro do Gabo sobre a Colômbia, me peguei pensando que não usaria minha corrente com o elefante lá naquele período. Pensamento bobo. Realidades semelhantes. Enquanto isso, tomo um café, agradeço a existência do Gabriel Gárcia Márquez e espero o dia em que terei a coragem de colocar novamente o elefante no pescoço e andar pelas ruas de Porto Alegre.

ps – aqui uma música e clipe que sempre me arrepia: https://www.youtube.com/watch?v=DkFJE8ZdeG8

“História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens.”

Mia Couto

Acredito que nossas vidas  nunca haviam se cruzado antes daquele sábado, 9 de novembro de 2013. Uma nota no jornal chamou a atenção dessa jornalista “Miss Gari Porto Alegre – Mais de 100 inscritas”. Depois disso, ao andar pelas ruas e ver essas trabalhadoras, passei a questionar “Será que essa é uma das concorrentes?”. A vontade era  parar uma delas e conversar. A timidez impediu e o diálogo não aconteceu. Entretanto, ao descobrir a data da final do concurso, não tive dúvidas da minha presença nas arquibancadas.

Acompanhei uma notícia que trazia a programação antes da final: passeio de barco, na linha de turismo, baile e palestra sobre saúde da mulher. E o dia 9 chegou. Não participei de nenhuma outra etapa e nem fiz contato com ninguém, simplesmente caminhei até o Ginásio Tesourinha, às 17h. Na frente, não podia faltar o churrasquinho e as bebidas. Apesar da parte interna também contar com um bar com lanches e drinques.

O cenário era diferente do que esperava: o palco estava ao fundo do ginásio num formato show e não de passarela. No centro da quadra, cadeiras de plástico brancas. O público estava tímido: em número e participação. Sentei no terceiro degrau da arquibancada, a direita da entrada. Na minha frente, ao outro lado da quadra, o maior número de pessoas. Elas usavam dois tipos de uniformes: parte com colete de tnt na cor laranja com o nome “Rita Keis” escrito com caneta preta juntamente com pessoas vestidas com camisetas, também laranjas, com os dizeres “Mais Bela Gari de Porto Alegre – Torcida Zona Norte” impressos.

O cheiro de um ginásio esportivo é único. Essa situação fez lembrar meus tempos de colégio e os torneios municipais da primavera com sua escolha de rainhas. Ali, naquele Tesourinha, havia muita burocracia de banners oficiais e organização, no entanto a torcida era verdadeira. Em sua maioria mulheres de todas as idades, algumas acompanhadas com crianças, outras senhoras vestidas com elegância. Enquanto isso, eu esperava o início do concurso.

Logo, um grupo de mulheres com crianças sentou bem ao meu lado na arquibancada. Estranhei esse fato em um lugar com tanto espaço vago, mas logo acabei participando dos seus comentários seja através de risadas ou com respostas.

“Isso aqui até parece o São Paulo Fashion Week! É a Gisele Bündchen que vai desfilar? Ou a Izabel Goulart? Pra quê tanto atraso?”, exclamava uma delas.

Minutos depois outro comentário:

– Parece que elas vão entrar vestidas com o uniforme.

– Mas pra quê se elas já usam ele todos os dias? – questiona a outra.

– Ué, não é o Mais Bela Gari?

Pontualmente – com uma hora de atraso – o desfile  começa. E escuto a constatação:

– Ih, elas vão ficar putas. Olha lá, estão entregando vassouras para elas.

E ao som de “Dança da Vassoura” (diga aonde você vai, que eu vou varrendo…), do Grupo Molejo, as 34 candidatas desfilam no palco com coreografia ensaiada e recepcionadas pelo Rei Momo. Inclusive um dos apresentadores do evento é o narrador oficial do carnaval de Porto Alegre, outra parte do desfile foi comandada pelo Sérgio Do Erre, voz do concurso Garota Verão.

A trilha do Garota Verão (“Thief of Hearts”, Melissa Manchester) também esteve presente no desfile em traje social, juntamente com Coldplay e umas duas músicas eletrônicas. Os vestidos sociais obedeciam um padrão: mesmo tecido, cor laranja e pequenos ajustes para cada candidata. Depois do desfile coletivo, foi a vez da entrada em duplas. O microfone ecoava nomes, idades, números e áreas de representação/trabalho de cada concorrente.

Logo após, a comissão julgadora – formada por jornalistas, misters, misses, cabeleireiros,  estilistas, entre outros –  se recolheu para decidir as vencedoras.

Uma das integrantes do grupo vizinho era Mariana, 3 anos de idade, acompanhada das tias e da dinda. Elas escolheram sentar ali, para não correr o risco da pequena querer invadir o palco ao ver a mãe. E realmente, logo após a primeira aparição materna, ela abriu o choro. Depois com as músicas dançou e sorriu. Até a jornalista recebeu sorrisos distribuídos pela Mariana.

E a apuração demorou mais de hora. Enquanto isso, houve homenagem das candidatas ao Rei Momo, que acompanhou as etapas anteriores. No telão, foram mostrados dois vídeos com as outras etapas e da arrumação antes do desfile. Houve uma apresentação de saxofone solo com direito a “Evidências”, “Fogo e Paixão” (você é a luz, raio, estrela e luar”, “Eu sei que vou te amar” e “Sozinho”. Em outra parte do ginásio, escuto: “Isso parece um velório”. Realmente, poderia ser mais animado, mas o repertório não foi lá tão ruim.

Depois, entrou um potpourri com muitas músicas  incluindo “Ai se eu te pego”, “Dança do créu”,”Ragatanga”, “I feel good”, entre tantas outras. E a comissão julgadora voltou. Nisso, minhas companheiras de torcida haviam comprado um refri 2l e oferecido um copo. O grupo foi para o outro lado ficar perto de sua candidata. Eu resolvi entrar na quadra e acompanhar mais de perto.

O primeiro resultado saiu para a escolha de melhor torcida. A vencedora foi Rita Keis, que recebeu no palco sua mãe como representante da torcida. Rita, no vídeo em que elas diziam “quero ser a Mais Bela Gari de Porto Alegre”, agradeceu sua mãe. Foi uma das poucas a mudar o discurso e a única a homenagear alguém. Ao voltar para sua posição no palco, ela limpava suas lágrimas, que pelo jeito eram de alegria. Depois foi escolhida a Miss Companhia do Cabelo, empresa que maquiou e arrumou os cabelos de todas elas. Logo em seguida veio a Gari Revelação, seguida da Gari Simpatia. Depois veio a divulgação da Segunda Princesa e na Primeira Princesa aconteceu um momento de tensão. Foi falado nome de uma e número de outra. Houve mudança na corte, o nome era o correto. Nisso, havia candidatas com fisionomia tristonhas. Ou seria eu que torcia para que todas fossem vencedoras?

E logo o anúncio da Mais Bela Gari de Porto alegre: Suelen Abreu. Mãe da Mariana e irmã das vizinhas torcedoras. Sorri por tamanha coincidência e também de alegria. Procurei as meninas, encontrei somente uma, dei os parabéns pela irmã e saí na rua chuvosa.

E foi assim. No dia 9 de novembro de 2013, cruzei com a vida da Mais Bela Gari de Porto Alegre. Esse é o recorte do nosso encontro. Um mundo novo nessa nossa existência nascente. E não, não era um São paulo Fashion Week, mas garanto que pra torcida da Suelen foi bem mais emocionate, que falem as lágrimas que avistei  – ao sair do ginásio – no rosto de sua família ao sair.

Primavera de 2013 

22 de setembro 

Oi Porto Alegre, 

Convivemos de uma forma bonita hoje. Apesar de ter dormido bem pouco, te vivi. Tenho te vivido. Nesses dias de Bienal e de manhãs, paro todo dia pra comprar meu lanche. Ali num mercadinho na outra quadra, de nome Riachuelo, vizinho de um açougue, que por sinal, parece bem na altura de outro açougue de Porto Alegre. Aquele do José Ramos, da Catarina e do Klaussner. Famoso por certas linguiças… 

Pois é, esse mercadinho tem todo ar de interior. Assim como toda Riachuelo, Rua da Ponte – ou algo assim. Tanto que nas duas últimas semanas cruzei com seis cartas de baralho perdidas por aí. Na mesma rua, no mesmo lado, em quadras variadas – e naipes também. 

Daí hoje comprei um sanduíche de queijo. Na primeira hora de trabalho conversei muito sobre tua situação em geral. E depois, fui visitar outro espaço. E isso já gerou toda outra discussão dentro de mim. Tudo faz sentido. E também nenhum sentido. Voltei. Por uma rua que ando em partes. E outra parte tão desconheço ao ponto de ao ler o nome e reconhecer, pensei um “é óbvio”. Entretanto, ela também surpreende. Muito. Ao andar pelas ruas “militares” veio a sensação de turista. De te descobrir numa manhã de domingo. Ao mesmo tempo, tão próxima. Pequenas quadras de distância. 

(a palavra quadra me incomoda, por isso, também uso, pensar a cidade como quadras. Sim? Não?) 

No fone de ouvido tocou Chico e cheguei na Usina com Caetano: meu coração vagabundo. Super identificação. E antes, teve bala de café do seu Ferreira. E visita de uma antiga colega de trabalho que adoro. 

E teve performace: sobre rua, lua, cidade e orçamento participativo. E fui embora. 

Parei. 

Fui na padaria. Almocei. E fui pra casa. 

Não a minha. 

E sim a de Cultura Mario Quintana. Com um café, subi pro jardim Lutzenberger , no quinto andar. Sentei. E vi o branco e o cinza: do céu, dos prédios e da Igreja das Dores. Sem pressa, sabe?! Em dúvida se depois do café ia dormir ou ia no cinema. Enquanto isso, subi a escada em caracol. (Beijo labirinto! Fiquei tontinha!) Lunetas, telescópios, gatos brancos, jardins suspensos, fulaninhos e senhorinhas. Uma outra tu. Outra Porto Alegre. Tão igual, tão diferente. Bom ver teu horizonte. Conhecer outro pedaço de ti. Teu horizonte a venda.

O cinema venceu. Em meio as páginas de um livro. Acesso de tosse no meio do filme (viva o clima pasteurizado! #soquenao). Um filme que assim: sei lá. Muito bom no início e fuen-fuen do meio pro fim. Em média: meia-boca. 

Daí saí. E já cruzei com os Renegados em Cena. Ri muito. Apresentações muito bacanas. Sacadas ótimas. E uma crítica ao sistema sempre bem-vinda. No meio do povo das “artes”, surgiram três crianças, negras, bem agasalhadas, mas que jogavam latas no palco. Como pediam. Mas será que também não era um pedido de atenção? Sei lá. Dois meninos mais velhos (13, 12 anos) e uma menina mais nova (9, 10 anos). Entreguei o resto de trakinas que tinha na bolsa. Pra menina. E depois, ao ver eles ali. Dentro, mas ao mesmo tempo fora. Bem fora. Tirei o meu lanche de terça (que tá na bolsa desde sexta, na economia) e entreguei pra menina. “Obrigada”, seco, mas sincero. E ela abriu o pacote e comeu. Uns três palitos integrais. E antes de ensacar, ofereceu pros irmãos/amigos/seilá. E um deles perguntou: “é bom?”. E ela: “É”. Ele pegou. Um palito. Depois ela ensacou e guardou. 

Fui embora. Cruzei com um rato (eca!). 

Relato do dia. 

Entretanto, falta uma parte. 

E agora, te deixo de lado Porto Alegre. E falo diretamente com quem eu quero. 

Oi Mario Quintana, 

Senti que a casa é tua mesmo. Te senti lá. O Hotel. E um pouco de tudo que passou ali. Hoje em dia tem tanta vida ali. Tanta história, tanta dança, namoro, tanta poesia. Tanto tu. Tuas linhas e palavras. 

Assim como tu, não viverei todas as ruas de Porto Alegre e suas esquinas. Ao mesmo tempo, gracias!. Por ter tanto de ti por aí. Nesse domingo, vivi a casa do poeta e seus arredores. 

Volte sempre. 

Ou melhor, me receba sempre. Tô tri aí pra ti Quintana. E viva a PrimaVera! (com seus pássaros passarinhando, gente andando e vivendo, agentes de um alegre porto)

Dos encontros

Ou reencontros. 
Hoje foi o segundo. Anos depois. Léguas e léguas de distância. A cidade mudou, eu mudei e a concepção do show também.
Auditório Araújo Vianna. Porto Alegre. 8 de maio de 2013.
Tenho evitado os espetáculos no local por questão de não concordar com o rumo que o governo municipal deu pro espaço. Entretanto, não resisti ao Jorge Drexler. 
A primeira vez que fui a uma apresentação dele foi em agosto de 2008. Festival de Inverno. Teatro do Bourbon Country. E quando soube que ele ia se apresentar hoje, não pestanejei em juntar as moedas e economias pra ir. No fim, agradeço a mãe que financiou a ida ao show. Gracias!
Jorge Drexler no palco hipnotiza ao contar histórias das canções, ao improvisar – umas duas vezes ele declarou a felicidade de estar tocando no Araújo, uma delas com uma letra bem bacana -, com sua voz e seu tesão de estar no palco. 
Explica que o sentimento dos violões é de loucura ao viajarem tanto: “ontem clima seco do México, hoje úmido como o pantanal, pobres cordas”. E canta e toca. Lindamente.
Corta para o fim do show. 
Em êxtase, consigo o setlist. Vejo uma fila se formar e somente as pessoas com pulseirinhas adentram o camarim. Percebo que o produtor libera a entrada de algumas pessoas. Digo:”to sozinha. Deixa eu passar?”. Entrei com mais um bando. 
Lá, mais espera. Tempo depois. Jorge entra. Mais filas. Tempo passa. E chega a minha vez.
Pose pra fotografia. 
Nisso percebo que estava tremendo ao tirar uma foto pras meninas que estavam na minha frente. E agora?
– Oi. 
– Oi. Pode assinar o setlist?
– Claro. Só preciso… – Nisso a moça da produção ajuda com a taça e percebo que ele precisa de um apoio, pego meu bloco de dentro da bolsa. 
Ele:
– Como estás?
– Bem. Melhor agora depois do show (rá! Essa aprendi com o professor Darcy, o mestre). 
– Ah, eu também. Que bom que gostou. 
– Sim. Só uma parte que não gostei muito. As das castanholas (estalos com os dedos). Me senti excluída. Não consigo de jeito nenhum fazer isso. 
– Pois é, tem pessoas que não conseguem mesmo. Tá liberada pra bater palma. 
– Ufa! Obrigada!
Não há maiores emoções. Fui embora. Muito feliz. Mesmo. 
Na página com as músicas está lá:
– Beijos e canciones, Jorge Drexler.
E é isso mesmo. Siga compondo e cantando. Não sei quando será nosso próximo reencontro. Mas se tudo der certo, Jorge, vou ta lá na plateia. Cantarolando. Embargando. E quem sabe, num milagre, consigo te acompanhar nas castanholas. Não vejo a hora. Volte sempre.

Pequenos causos

1 – Desde março que não sabia o paradeiro da minha identidade. Procurei nos lugares óbvios, nos não tão óbvios assim e nada. Não fiz o boletim de ocorrência, porque tenho uma ligação sentimental com ela: foi o último presente do meu avô José. Ele pagou meu segundo RG. Coisa boba, eu sei. Mas sempre lembro dele quando estou com ela. Voltando ao sumiço. Tinha a vaga sensação de ter usado ela como marca página de um livro. Procurei em alguns e nada. Até a noite de ontem, quando recebo uma mensagem da mãe:

– Tua identidade tava dentro do livro do Fante. Capítulo 25. Páginas 146 e 147: “Meu lar era um bom lugar. Eu dormia bem. Comia bem. Nos primeiros dias, eu vadiava pela casa (…)”

Sorri.

2 – Essa semana passei uns bons minutos procurando minha carteira de trabalho – que passei a usar como RG. Mesma coisa: lugares óbvios, não óbvios, com a diferença de ter arrumado o quarto uma semana antes e ter colocado tudo no lugar. Cheguei até perguntar prum amigo se ela não tinha ido passear com ele. Até que resolvi procurar pela QUARTA vez na caixa onde está escrito “documentos”. E lá tava ela, bem no alto, a mostra dos olhos.

Esse duendes.

3 – Tarde dessas, voltava pra casa ali pela Praça da Alfândega. Era perto das 6 da tarde. Meus pensamentos estavam leves. Os fones de ouvido ecoavam uma boa música. O olhar perdido com a visão do entardecer caindo entre os prédios do Memorial e do Margs, terminando no Cais do Porto. Ao virar em direção ao Clube do Comércio, vejo uma senhora em uma cadeira de rodas com uma moça atrás dela. Não sei se sua filha, de sua família, amiga ou secretária. Sei que a jovem estava com a mão no ombro da senhora, levemente curvada e as duas trocavam palavras e sorrisos. Paradas. Viradas em direção do Guaíba apreciando o pôr-do-sol. Uma onda de felicidade me atingiu.

4 – Uma madrugada. Depois de uma noite puxada de trabalho, fui conhecer um bar. Lá, encontrei amigos, cerveja com preço honesto e uma roda de violão. Conheci uma música, que diz: “Ano passado morri mas esse ano não morro”. Cantei. Sorri. E concordei, entretanto pensando o contrário “Esse ano morro mas ano que vem não morro”. Acordei. Feliz de ter revisto amigas, de ter conhecido esse lugar e mudando novamente a canção: “Não morro esse ano nem ano que vem”.

Estamos aí, esperando novos causos e recomeçando essa curta semana útil.

http://letras.mus.br/belchior/344922/#selecoes/344922/

10 anos

Foi no final de fevereiro de 2002 que aportei em Porto Alegre. Lembro do almoço na casa da vó, do edredon azul de solteiro e das lágrimas. 
São Gabriel não me bastava. E assim cheguei na capital do estado. Na aula do outro dia, minha corrente – que ganhei do pai nos 15 anos – dava voltas no pescoço.
– Essa é minha amiga de São Gabriel que vem estudar aqui.
– Oi.
Minha diversão era bem simples: cinema no meio da tarde, leitura no parque e poder ir num restaurante sozinha. Comer fora, lá era raro, aqui comum. 
Antes disso, lembro duma Feira do Livro que fiquei surpreendida pelo número de pessoas circulando pelo centro perigoso. 
A Porto Alegre que vivo hoje, é bem diferente da cidade dos meus 16. Ela mudou, eu mudei. Sentimos nossas diferenças. Tenho ainda na memória a primeira vez que pisei no Teatro São Pedro. Foi um misto de veneração, incredulidade e emoção. “Nossa, tô aqui, num show do Nei Lisboa, na terceira fila. Olha esse lustre! Bah, cheiro de canela. E essa poltrona? Tão macia.” Foi uma mescla de sensações. Ao mesmo tempo, não sabia chegar do Santa Cecília ao teatro.
Hoje?
Passo por ele quase que diariamente.
Perdeu o brilho?
Bem capaz, considero-o como um amigo. Não sei dizer quantas vezes estive lá. No início, anotava as peças, shows e filmes que via. Não tenho tantas anotações atualmente, entretanto converso com o teatro alguns dias. Já é um confidente.
Assim como tantas outras ruas e lugares. Porto Alegre me conquistou. Sinto seu cheiro e seus hábitos. Gosto da silhueta que a cidade me apresenta. Encaixamos.
Cansamos também. Mais eu do que ela. Confesso, ela não tem recebido o respeito necessário. Ela precisa de cafuné, carinho e compreensão. Sinto que seus cidadãos não compreendem sua alma. Porto Alegre tem alma. Assim como eu e você. 
Veja bem, todos seus pontos naturais estão envenenados pela poluição e tal. Tu conhece o Morro Santana? Tu já andou sem carro, ônibus, pelo centro? E a zona sul? E a zona norte? E o teu vizinho, conhece?
Faço minha mea-culpa. Minha vizinha tem uma pizza deliciosa e não sei o nome dela. Ao mesmo tempo, que curto muito as adolescentes e seus papos, os piá e seus skates. Descobri no centro uma vida intensa. 
E a minha Porto Alegre?
Foi através dela que me tornei a pessoa que sou hoje. Seus habitantes, meus amigos. Por seus governantes perderem o prumo, pensei em desembarcar. Mas ela me chama. 
Afinal, são 10 anos de cumplicidade e afinidade. Ela me forneceu um outro mundo, eu trouxe pra ela a pessoa que sou/fui/serei. 
Sem escapar do clichê: Porto Alegre me tem, não me leve a mal. 
Por isso, estarei nas suas ruas escutando seus pedidos. E seu amor.

ps – texto publicado no facebook em 25 de outubro

ps2 – Enquanto não nos separamos, sigo curtindo muito Porto Alegre.