O centro de Porto Alegre sempre exerceu um fascínio sobre mim. Tudo começou segundo o relato da mãe, quando tinha uns 8 meses e viajamos de São Gabriel para Porto Alegre. E ao caminhar pela Rua da Praia, eu avistei os letreiros neons e comecei a sorrir e agitar os braços. Não lembro da cena, naturalmente.
Cerca de nove anos se passaram entre o primeiro e o segundo encontro meu com a cidade. Voltei na páscoa de 1995. Viajamos na chevy branca, tomando chimarrão e conversando sobre as coisas de interesse de uma menina de nove anos que pensa que conhece o mundo. Lembro que durante a viagem, implorei: “Mãe, por favor, me acorda antes de chegar na cidade, quero ver as luzes.”. E não me decepcionei. A visão que tive foi umas das cenas mais gigantescas que já tinha vivido. Nesse feriado, vivi muitas coisas: andei de ônibus lotado, comi minha primeira casquinha de MC Donald’s, andei de escada rolante e também foi quando o Ayrton Senna morreu. Notem que mais de dez anos passaram e se me perguntarem, sei a roupa que fui ao shopping – inclusive me sujei de sorvete – e lembro o que pensei quando soube da morte do Senna.
Aos doze anos, passei as férias de inverno na capital. Acompanhada da tia que tem a minha idade, fiquei hospedada na casa da minha outra tia. Essa irmã do pai e mãe dos meus três primos. Fiquei assustada com o emanharado da cidade. Na minha cabeça, só as pessoas muito inteligentes conseguiam andar pelo centro. Era tanta rua, tantas pessoas, tanto lugar para se olhar.
E essa imagem do centro me acompanhou por alguns anos. Quando vim morar aqui em 2002, com 16 anos, tinha medo dessa região. Achava suja e perigosa. O freqüentava só quando não podia evitar. Confesso que pouco conhecia dele. Porto Alegre me encantava por outros lugares.
Lentamente, fui dissolvendo os meus preconceitos. Digamos que amadureci e compreendi a cidade. Como já disse uma outra vez, Porto Alegre me conquistou. E muito. Compreendi o seu gênio e passei a conhecer os nuances de suas ruas.
Viajei. Tive outras paixões geográficas. E quando pensei em logo partir daqui, acabei indo morar no centro. Num dos lugares que despertava em mim uma enorme fascinação. Duque de Caxias nos altos do viaduto da Borges.
Comecei a ter uma nova relação com a cidade e com o centro. Viver nesse local trouxe para mim, uma Porto Alegre diferente, que arrematou de vez o meu coração. E um dos aspectos que chamou a minha atenção foi descobrir que as escadarias são lavadas diariamente.
Passei a considerar o som da água no concreto o meu som de dormir. Despertou em mim uma curiosidade enorme de saber como ocorria esse trabalho. Até que um dia na saída do bar que se localiza no pátio do prédio, fui com dois amigos conversar com os trabalhadores que lavam a escadaria.
Um apenas conversou conosco. O Márcio. Há três meses trabalha ali. A jornada começa perto da meia-noite e vai até umas cinco da manhã. Começam a lavar a Borges. E descem em direção ao prédio da prefeitura. Há um outro caminhão pipa, que passa sua água na região da Voluntários da Pátria. Diariamente. Com folga no sábado.
Márcio termina a conversa. Os colegas o chamam. Um coordena a mangueira e uns quatro a seguram atrás. Antes de descer a escadaria, ele olha e pergunta se não sabemos de algum apartamento para alugar – “Sabe como é, moro lá na Restinga e agora trabalhando por aqui, queria me mudar pro centro.”. Falei que se soubesse de algo avisava.
O que não sabia eu, que teria que sair do lugar onde eu moro. Já passei por essa situação outras vezes. Posso fazer uso de uma canção da Legião Urbana: “Já morei em tanta casa que nem me lembro mais”. A próxima será a 22ª. Entretanto, esse apartamento na Duque, resgatou muitos sentimentos legais em relação a cidade. Foram apenas quatro meses, que me serviram muito. Mas faço uso das palavras do Márcio: “Se alguém souber de algum lugar disponível para morar no centro, me avisa.”. Afinal, com oito meses abanei os braços quando passei pela Andradas. E isso, que era uma criança muito tímida.
E a propósito, caso saibam de algum apartamento: o Márcio vocês encontram diariamente, com exceção do sábado, na escadaria por volta da 1h, 2h da manhã. E eu, podem se manifestar nesse espaço.