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Meu lado analógico

Creio que foi no filme “O carteiro e o poeta” que ouvi uma frase que falava sobre as cartas, os destinatários e de quem elas realmente pertenciam. Era dito algo como que os verdadeiros donos são aqueles que escrevem, que ali, naquelas linhas/páginas, vai junto um pedaço de quem escreveu.

Sou do tempo das cartas. Sem carimbos com cera ou caneta tinteiro, mesmo assim tenho duas caixas repletas delas. Numa época que a internet era novidade, redes sociais não existiam e ainda morava no interior do Rio Grande do Sul , eu, escrevia cartas. Não lembro qual foi a primeira, no entanto lembro de tardes no meu quarto, em uma das tantas casas que morei, na companhia da minha parceira dessa jornada, escolhendo em um guia telefônico da Região Fronteira-Oeste nomes aleatórios de pessoas e endereços. Não lembro quantas cartas enviamos e nem o que escrevemos. Imagino que deva ter sido uma apresentação, algo com idade, série no colégio, o nosso lazer da época e uma pergunta “quer ser nosso amigo?”. Como queria reler uma carta dessas. Não imagino quais palavras usei para me apresentar a um estranho com 12 anos. Nunca recebemos nenhuma resposta.

Depois disso, passamos para os endereços dos colégios Maristas, pois estudávamos em um. Os de Porto Alegre coube a minha amiga enviar a mensagem, já que ela moraria na cidade em algum tempo. Novamente, não sei quantos envelopes mandei. Recebi resposta de três colegas. Erechim, Passo Fundo e Fortaleza. Mas, os contatos não foram muito longe. Também, mandamos uma carta para um menino no Rio de Janeiro. Na verdade, respondemos a uma mensagem da Revista Cães e Cia. que ele havia escrito. Trocamos umas cinco correspondências e foi isso.

Com a ida da Manu para Porto Alegre, freqüentava o correio quase uma vez por semana e as vezes mais. Boa parte das cartas que guardo são dela. Nas caixas há ainda cartões de natal e aniversários. Bilhetes da época do colégio. Algumas pessoas já nem tenho contato, mas guardo um pedaço de cada uma. Suas letras, suas palavras. A letra da minha vó Susana em um envelope, o único escrito por ela. Bilhete do pai no meu aniversário de 16 anos, que ele levou de manhã bem cedo com o jornal do dia. A carta escrita por uma amiga querida na minha despedida de São Gabriel.

E na primeira segunda-feira do ano, passei um tempo relendo o conteúdo das caixas. Lembrei de fases da minha vida, paixões da época, músicas que gostava, medos e sonhos. No meio disso tudo, tem ainda as mensagens que escrevi para mim. Com inscrições bem claras no envelope do tipo: “ABRIR EM 2005”. Hoje em dia, ainda mando cartas. Muito poucas na verdade. Em 2011, recebi duas. Manu e Tati. Uma de aniversário, outra perto do natal. Valorizo muito a sensação de chegar em casa e encontrar um envelope na caixa do correio ou alguma parte da casa.

Voltando a primeira segunda-feira do ano. A dona verdadeira de parte das cartas apareceu lá em casa. Passamos a tarde lendo em voz alta as cartas e tomando cerveja. E foi aí que lembrei do “O Carteiro e o Poeta”. As cartas não pertencem ao destinatário, e sim, realmente a quem as escrevem. Tenho perdido por aí, vários pedaços de ‘Suzanas”.  Ao mesmo tempo, que consigo montar uma outra pela visão de outras pessoas e seus escritos. Pretendo ainda mandar por envelopes selados muitas cartas. Ou melhor, pedaços de mim.

Ps – Algo clichê: encontrei uma carta de amor no livro “Orgulho e Preconceito”, da Jane Austen, no exemplar que retirei na UFRGS. Até hoje, tenho a carta guardada.

Ps 2 – Sim, eu chorei vendo “Mary and Max”. Pra quem não entendeu, digo uma coisa: assista.

Ps3 – No meio das cartas, havia uma que era as metas de 2001 para 2002. E por pura coincidência, 10 anos depois lemos. E claro, escrevemos, Manu e eu, nossas metas de 2011 para 2012.

Trilha sonora – 1

Depois do show de quinta-feira do projeto Unimúsica ali da UFRGS, fiquei mais fã ainda.

E foi dela o primeiro show sozinha que fui na vida. Ali no Teatro São Pedro há uns 3, 4 anos atrás.

……

- Quem será que tá no palco agora?

- Ora, é a Mônica Salmaso.

- Como tu sabe?

- Pelo barulho do tamborim.

E eu, que mal sabia que aquele instrumento se chamava tamborim.

Esse diálogo retirei da conversa de um casal de cegos que estavam ao meu lado durante a apresentação no Salão de Atos. Bem quando tocava a introdução dessa música:

Interceptei rápido a lágrima que caiu.

…..

Procura-se uma dama de espada perdida nas ruas de Porto Alegre.

Três

Nessa semana, já pensei em uns três assuntos para tratar aqui.

Não vou falar sobre nenhum deles agora.

2011. Três meses pro final do ano. 1mês e meio para entregar a monografia, depois de 3 matrículas. 3 casas diferentes.

E quando comecei a escrever esse post, não tinha a mínima noção que ia usar tanto o número três.

Até mudei o nome dele.

É isso. Escolhi escrever sobre o nada.

Dia meio blé.  Devagar para pensar e assimilar as mudanças da vida.

E pela terceira vez na vida, me matriculei na natação. Espero que dessa vez, aprenda a nadar.

Esses dias chuvosos em Porto Alegre e o rumo que a vida leva, trouxeram uma dose de melancolia. E hoje caminhando até ao trabalho, fiz uma lista de coisas que eu gosto. Cheguei feliz. E com vontade de postar isso aqui no blogue.

1 – Encontrar cartas de baralhos pelas ruas. Já foram nove, e impressionante como isso modifica meu humor. Considero um dia de sorte sempre quando cruzo com alguma carta por aí.

2 – Catar fusca azul pela cidade. E de preferência ter algum amigo do lado pra dar aquele leve soquinho e dizer “Rá, fusca azul!”. (Passei por um hoje)

3 – Tomar um cappuccino. (Fiz isso hoje também).

4 – Encontrar um amigo na rua e parar para conversar. (Encontrei um hoje, aqui no trabalho).

5 – Ir no cinema. Só ou acompanhada. (Ontem fui sozinha. Com direito a pipoca e tudo o mais. Vi Um conto chinês, filme argentino bem bacana).

6 – Escutar no rádio uma música que gosto muito (terça de noite, tocou uma especial bem na hora que coloquei o fone de ouvido).

7 – Cheiro de café moído.

8 – Chocolate, doce.

9 – Comer uma refeição suculenta, principalmente na companhia de pessoas legais.

10 – Brincar com cachorro (Na quinta passada, fiz isso com o Alfredo).

11 – Afofar um gato (No final de semana passado, afofei muito o Fidel).

12 – Passar um creme cheiroso depois do banho.

13 – Tarde de sol com direito a bergamota.

14 – Receber email, mensagem, telefonema de quem a gente gosta. (Hoje também).

15 – Trocar email com amigas. (Hoje também).

16 – Livros. De todos os tipos, cores e sabores.

17 – Música também.

18 – Dançar sem vergonha. (Faz tempo que não faço isso).

19 – Tomar uma cerveja.

20 – Conhecer novas pessoas.

21 – Ir pro trabalho andando. (Fiz hoje, pela primeira vez depois que me mudei.)

22 – Rir. Muito. Com corpo e alma.

23 – Varar a noite por aí.

24 – Ignorar o despertador.

25 – Levantar cedo. (De vez em quando faz bem, hehe).

26 – Arrumar a casa. (Nunca pensei que ia considerar isso bom, mas ontem arrumando o quarto deu pra perceber que realmente mudei.)

27 – Paixão. Hoje novamente me apaixonei pelo centro de Porto Alegre e pelo lugar onde trabalho.

28 – Ir no teatro. Além do mais se a peça for boa. E melhor ainda quando é de amigos.

29 – Aniversários.

30 - Fazer listas. Não adianta. Eu não resisto. Apesar de não cumprir umas quantas, sempre tô fazendo listas.

Feliz quinta-feira.

ps – De acordo com dia e com a hora, essa lista pode sofrer alterações. =p

ps – Concordam? Discordam?

o centro e eu

O centro de Porto Alegre sempre exerceu um fascínio sobre mim. Tudo começou segundo o relato da mãe, quando tinha uns 8 meses e viajamos de São Gabriel para Porto Alegre. E ao caminhar pela Rua da Praia, eu avistei os letreiros neons e comecei a sorrir e agitar os braços. Não lembro da cena, naturalmente.

Cerca de nove anos se passaram entre o primeiro e o segundo encontro meu com a cidade. Voltei na páscoa de 1995. Viajamos na chevy branca, tomando chimarrão e conversando sobre as coisas de interesse de uma menina de nove anos que pensa que conhece o mundo. Lembro que durante a viagem, implorei: “Mãe, por favor, me acorda antes de chegar na cidade, quero ver as luzes.”. E não me decepcionei. A visão que tive foi umas das cenas mais gigantescas que já tinha vivido. Nesse feriado, vivi muitas coisas: andei de ônibus lotado, comi minha primeira casquinha de MC Donald’s, andei de escada rolante e também foi quando o Ayrton Senna morreu. Notem que mais de dez anos passaram e se me perguntarem, sei a roupa que fui ao shopping – inclusive me sujei de sorvete – e lembro o que pensei quando soube da morte do Senna.

Aos doze anos, passei as férias de inverno na capital. Acompanhada da tia que tem a minha idade, fiquei hospedada na casa da minha outra tia. Essa irmã do pai e mãe dos meus três primos. Fiquei assustada com o emanharado da cidade. Na minha cabeça, só as pessoas muito inteligentes conseguiam andar pelo centro. Era tanta rua, tantas pessoas, tanto lugar para se olhar.

E essa imagem do centro me acompanhou por alguns anos. Quando vim morar aqui em 2002, com 16 anos, tinha medo dessa região. Achava suja e perigosa. O freqüentava só quando não podia evitar. Confesso que pouco conhecia dele. Porto Alegre me encantava por outros lugares.

Lentamente, fui dissolvendo os meus preconceitos. Digamos que amadureci e compreendi a cidade. Como já disse uma outra vez, Porto Alegre me conquistou. E muito. Compreendi o seu gênio e passei a conhecer os nuances de suas ruas.

Viajei. Tive outras paixões geográficas. E quando pensei em logo partir daqui, acabei indo morar no centro. Num dos lugares que despertava em mim uma enorme fascinação. Duque de Caxias nos altos do viaduto da Borges.

Comecei a ter uma nova relação com a cidade e com o centro. Viver nesse local trouxe para mim, uma Porto Alegre diferente, que arrematou de vez o meu coração. E um dos aspectos que chamou a minha atenção foi descobrir que as escadarias são lavadas diariamente.

Passei a considerar o som da água no concreto o meu som de dormir. Despertou em mim uma curiosidade enorme de saber como ocorria esse trabalho. Até que um dia na saída do bar que se localiza no pátio do prédio, fui com dois amigos conversar com os trabalhadores que lavam a escadaria.

Um apenas conversou conosco. O Márcio. Há três meses trabalha ali. A jornada começa perto da meia-noite e vai até umas cinco da manhã. Começam a lavar a Borges. E descem em direção ao prédio da prefeitura. Há um outro caminhão pipa, que passa sua água na região da Voluntários da Pátria. Diariamente. Com folga no sábado.

Márcio termina a conversa. Os colegas o chamam. Um coordena a mangueira e uns quatro a seguram atrás. Antes de descer a escadaria, ele olha e pergunta se não sabemos de algum apartamento para alugar – “Sabe como é, moro lá na Restinga e agora trabalhando por aqui, queria me mudar pro centro.”. Falei que se soubesse de algo avisava.

O que não sabia eu, que teria que sair do lugar onde eu moro. Já passei por essa situação outras vezes. Posso fazer uso de uma canção da Legião Urbana: “Já morei em tanta casa que nem me lembro mais”. A próxima será a 22ª. Entretanto, esse apartamento na Duque, resgatou muitos sentimentos legais em relação a cidade. Foram apenas quatro meses, que me serviram muito. Mas faço uso das palavras do Márcio: “Se alguém souber de algum lugar disponível para morar no centro, me avisa.”. Afinal, com oito meses abanei os braços quando passei pela Andradas. E isso, que era uma criança muito tímida.

E a propósito, caso saibam de algum apartamento: o Márcio vocês encontram diariamente, com exceção do sábado, na escadaria por volta da 1h, 2h da manhã. E eu, podem se manifestar nesse espaço.

12 de junho

Na saída do show hoje no Santander os passos de uma velhinha eram amparados pela sua neta de uns 10 anos. Não tive como evitar a saudade da minha vó Susana. Há dois anos, que essa é uma das datas em que mais a recordo. Com orgulho e amor. Fui sua neta única e herdei dela o mesmo nome. Recebi seu afeto e seus mimos. E lá com meus 13, 14 anos, recebi dela o meu primeiro presente de dia dos namorados. Um buquê de flores com o cartão que dizia “Feliz dia dos Namorados! Da tua eterna enamorada, vovó”. E pra mim, já não considero mais uma data dos namorados. Há dois anos que comemoro o dia, mesmo sendo solteira. Gosto do dia. E acredito que isso aconteceu por causa das flores e do que a vó representa pra mim. Hoje é um dia de celebração. Vamos celebrar. Um feliz dia 12 de junho pra todos. E uma boa semana também.

Caminhos

O nome dessa postagem também poderia ser mudanças. Em 2011, pequenas – ou grandes-  coisas aconteceram. Nesse exato momento, cheguei no meu apartamento quase vazio, com exceção do meu quarto. Sábado sairei daqui. E oficialmente serei uma sem teto. É um pouco estranho não ter endereço fixo, principalmente numa cidade que considero como parte de mim. Fora isso, será minha 21ª mudança em 25 anos de vida. É bastante.

Amanhã – ou hoje – mais uma nova despedida. Mathilde, a menina da Alemanha que recebi em casa, vai embora. E mesmo que tenha sido poucos dias de convivência já me sentia muito bem com ela. Sua companhia é agradável e senti ela como uma amiga.

E isso também passei ontem, quando voltei de uma viagem. Um paradoxo. Gosto de conhecer outras pessoas e me sentir muito bem com elas, entretanto cada retorno para casa é um pedaço a menos. Ok. E muitas experiências a mais.

Caraca. Quero muito encontrar essas pessoas e lugares que fazem diferença na minha vida. E me formar nesse semestre. E conseguir uma casa logo. E ser feliz.  E mudar e andar por muitos caminhos sempre.

E termino com a música que escuto agora. E que descobri nessa viagem num momento muito bacana:

2010 termina logo ali. E caramba como gostei desse ano. Desde o seu início com a trilha sonora do Chico Buarque e em companhia das pessoas que mais me conhecem.

Levei um susto logo em janeiro. Não contava com a menigite viral, mas enfim, novas experiências e tudo o mais. Fevereiro foi um tanto repleto de emoções confusas e de um banho noturno no chafariz da Redenção. E claro, início dos 24 anos.

Comecei março em São Paulo e desempregada. Poderia ter ficado por lá. Taí uma das sensações que mais senti esse ano: poderia ter ficado. Me senti em casa em tantos lugares que a lista de possíveis cidades que moraria aumentou consideravelmente. Era uma coisa que não compreendia antes. O sentimento de estar em casa. Completa.

Abril foi de ócio nem um pouco produtivo. Realmente, preciso de um trabalho com horário e que seja obrigada sair de casa. Maio reinício da vida profissional, mas sem muita emoção.

Junho, muitas primeiras vezes na viagem que fiz. Primeira vez sozinha, primeira vez no nordeste. Lembro de chegar na praia de manhã bem cedo de uma sexta-feira, parar, olhar e pensar: “tá e agora o que eu faço?”. Nisso notei o quanto entrei num ritmo acelerado e nem percebi. Foi o ponto de partida para reaprender a relaxar. Aí não consegui êxito total, mas valorizo bem mais o não fazer nada e me dedico a essa prática com frequência. Taí uma das metas para 2011. Não ficar tão tensa.

Também foi o ano que perdi minha última avó. Deixei de ser neta.

Julho e agosto, meses frios e dias tranquilos. Setembro várias viagens. Primeira experiência com o site couchsurfing e muitas boas histórias na bagagem. Floripa e São Luís do Maranhão. Álias, o Maranhão também despertou em mim uma imensa vontade de ficar.

Passei a metade de outubro fora. 2 dias em São Paulo, um casamento no interior de Minas Gerais e um show em Salvador. Novembro último mês útil do ano. Voltei ao Rio de Janeiro. E a cidade me conquistou deveras. Fui bem na época da “guerra”, entretanto me senti bem mais segura lá do que nas ruas gaúchas. Dezembro é a loucura de final de ano. Hora de sentar e ver o que foi feito do ano. Hora de escutar os amigos e saber o que eles acharam do ano.

2009 classifiquei como o ano que convivi mais comigo. 2010 digo que foi o ano que fiz e vivi. O ano que me trouxe uma sensação de realização.

Um dia relendo besteiras que escrevi, dei de cara com a realidade. A maioria das coisas que fiz esse ano, são coisas que há muito tempo eu queria e antes apenas idealizava.

O que espero de 2011?

Uma continuação dos fazeres de 2010. Uma alimentação mais saudável, uma natação, uma monografia feita e uma formatura tão adiada e sonhada. Mais amigos no dia-a-dia, mais trabalhos legais como o Museu e o Parangolé, mais amores.

Tchau 2010. Obrigada por essas lembranças. Bem-vido 2011, que tenhamos uma boa convivência.

 

 

Quando tinha uns 7 anos, acompanhei muitos finais de tarde da sacada onde morava. Eram momentos que dividia o colorido do céu com  a silenciosa companhia da mãe. Lembro de um dia em especial, quando tentava entender o país onde nasci e lasquei a pergunta:

- Mãe, alguma mulher já foi presidente do Brasil?

- Não.

- Pq?

- Não sei. Falta de preparo, quem sabe ou nenhuma quis.

Lembro do meu silêncio e dos meus pensamentos. Na época, não sabia o que era ditadura e nem que o Brasil havia passado por uma recentemente. Acreditava que o lugar onde nasci era um dos melhores e era uma pessoa muito pollyana. Não falei pra mãe, mas pensei que, sim, um dia eu seria a presidente do Brasil, a primeira.

O tempo passou. A inocência diminuiu e a pretensão de ser política sumiu. Era muito sapo para engolir. Descobri que a história do Brasil não era tão bonita como eu imaginava. Não vivi uma ditadura, mas ouvi depoimentos do que ela significou.

Descobri também que para algumas pessoas há diferença de capacidade entre homens e mulheres. Ao me chocar com isso, descobri que era uma feminista, não radical, mas mesmo assim feminista.

Um tantão de coisas mais aconteceram.

E hoje, apreciei mais um entardecer. Dessa vez na beira do Guaíba, depois de um domingo onde fui mesária pela primeira vez. Depois de 8 anos do meu primeiro voto. O dia onde a população brasileira elegeu uma mulher para o cargo de presidente. E nesse contexto, de sonhos e finais de tarde, lembrei da conversa que tive com a mãe e daquela criança utópica.

Sorri. Fiquei feliz de poder acompanhar esse momento. Dilma passou pela ditadura e é a primeira mulher presidente. Desejo sorte ao seu governo. Desejo sorte ao pedaço da criança pollyana que ainda vive em mim e acredita que sonhos virem realidade.

 

Tudo começou com uma série de televisão há uns quatro anos atrás. Num episódio, apareceu um homem que juntava cartas que encontrava pela rua. Isso ficou na minha cabeça. Como assim cartas de um baralho perdidas por aí?

Desde então comecei a cuidar. E olha que demorou uns dois anos para encontrar a primeira. Foi perto do meu antigo apartamento. Um 5 de paus. Por muito tempo, tive que me contentar com ela apenas no meu baralho.

Lá por maio, andando com uma amiga em uma zona de Porto Alegre onde nunca passo, vi no chão um rei de copas. Cinco passos adiante encontrei a metade de uma dama de paus. Assim, pude seguir adiante com o plano de montar o baralho.

Em junho, me aventurei lá pelo nordeste. E num sábado de tarde, cruzei com duas cartas no centro da Praia da Pipa. Depois, que as resgatei, pensei um pouco nisso. Afinal, estava com duas pessoas que havia conhecido por ali que me olharam com um semblante de estranhamento. No fim, venceu a alegria de ter encontrado um 9 de ouro e um 8 de copas.

Quarta-feira passada ia pelo mesmo caminho de sempre para o trabalho e como sempre atrasada. Enquanto desviava dos transeuntes pela Venâncio e selecionava a estação de rádio pelo celular, me deparei com mais duas cartas. Peguei-as rápido e nem olhei para as pessoas em volta. Quando vi que eram dois 2, não agüentei e sorri. E assim, adquiri 2 de espada e 2 de copa.

E ontem, menos de uma semana depois, no final do expediente, na pia do banheiro do lugar onde trabalho encontrei um 10 de paus. Não sei se algum dia vou conseguir juntar todas as cartas para formar um baralho inteiro. O que sei é que me divirto nessa busca, gosto de considerar que tive um dia de sorte, porque encontrei na correria do dia-a-dia o incomum, que pode ser  dois 2.

UPDATE – E não é que num dia chuvoso e melancólico no Rio de Janeiro em março de 2011, numa época de incerteza encontrei um rei de paus. Embarrado e molhado. E foi com um sorriso de incredulidade que o juntei na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Bem na frente de um morador de rua. Agora faz companhia com o resto do baralho.

 

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