depois de uma semana e alguns dias venho aqui escrever que perdi meu avô também nesse ano. na verdade, ele era meu vôdrasto, segundo marido da minha vó. Ele nunca foi muito carinhoso, quando pequena queria que eu o chamasse de tio. Mas sempre insisti no vô. E para ver o tão complexa é minha família, meu vô verdadeiro tinha ciumes dele. Nunca falou nada para mim, soube disso depois de sua morte, quando tinha nove anos.
A mãe acreditava que logo seu padrasto iria arrumar outra. Achava isso meio descabido para um homem de 88 anos, viuvo há 20 dias. No domingo, um dia depois do meu aniversário, fomos lá. A mãe seguia indo quase todo dia, arrumando remédios e coisa e tal. Nessa tarde, discutimos a medicina. Ele não acreditava nela, apesar de estar em seu segundo marcapasso. Na saída, ouvimos a frase derradeira: eu vou morrer é de bala. Nas duas quadras na volta para casa, discutimos operigo dele cometer suicídio. Pensaríamos nisso nos próximos dias.
segunda cedo, peguei o onibus de volta para Porto Alegre. Recebi uma ligação da menina da loja deles e achei meio estranha, mas tá, segui a viagem com meus planos na festa de formatura. Meia hora depois ligou a mãe.
- Su, teu vô morreu.
Não soube como reagir. No meio de gente desconhecida, presa no meio da estrada, não pude expressar minha dor. Por sorte consegui dormir e me contive. Acordei achando que era mentira. Cheguei no trabalho e quando meu colega perguntou como estava. Desabei. Senti vergonha de chorar no trabalho, mas era lá que encontrei um ombro amigo.
Os dias se seguiram. Notícias de São Gabriel não muito agradaveis. vontade de falar verdades não tão bem-vindas. Minhas verdades. não sei até que ponto são verdades. por aqui, tentava manter a tranquilidade. fingir que estava tudo bem. a máscara caiu atraves de uma conversa desastrada onde não fui bem interpretada ou não quiseram me entender. não sei. depois disso, o choro. finalmente o choro corria livramente. assumi que estou com medo da situação, que de repente não sou tão forte o quanto pareço ser ou quero parecer.
essa noite. admito a saudade e o desiquilibrio que a falta deles faz. lembro da foto do brizola na parede, os ensinamentos sobre plantas, a dança do bolero mexicano do trio los panchos em meio a recordações do passado e admiração pelo João de barro. O barreiro em suas palavras. o cuidado com um que a cada ano mudava de poste. ano que vem seria o dele, segundo seus cálculos. não sei se ele estaria certo. não sei qual era o casal de barreiro que ele cuidava.
sei que morreu do jeito que muitos querem. dormindo. depois de uma derrota do seu time para seu maior arquirival. não sei se sentiu medo e nem seus últimos pensamentos. assim como não soube os da vó. sem chance de despedida.
sei lá, mas sentia que no último ano havia conquistado sua admiração. teria me transformado na defensora de suas crenças. os únicos da famílias que são ateus, os mais convictos na política.
e mesmo com tudo isso me sentia distante dele, dela. Sinto que todos os meus avôs não me conheceram, assim como meu pai. Da família, acho que só a mãe sabe como sou um pouco mais. Assim, como sinto que não os conheci.
A foto com o pandeiro da vó nos seu 17 anos mexe com minha imaginação. A infância sem rumo do vôdrasto também. Assim como o sentimento amoroso do vô verdadeiro.
Quebra-cabeça da vida. Não sei bem como a situação vai se resolver e nem como terminar com esses pensamentos, textos e medos. Vou tentar encarar. Essa é a meta.
enquanto isso, torço pela paz do velho barreiro e da minha princesa. quem sabe um dia, isso tudo fará mais sentido.